COP30: uma mobilização excepcional dos pesquisadores do Cirad

19/12/2025
Embora o acordo adotado in extremis na COP30 seja menos ambicioso do que o esperado, é importante destacar uma evolução. As questões relacionadas à agricultura nunca estiveram tão presentes nas discussões. O Cirad se mobilizou amplamente, participando ativamente de todos os componentes dessa arena internacional. Veja em imagens alguns dos momentos mais marcantes do Cirad na COP30.
emma jagu schippers Cirad RINGO COP30
emma jagu schippers Cirad RINGO COP30

Emma Jagu Schippers (ao centro), economista do Cirad, durante as negociações oficiais da COP30 sobre o artigo 6º do Acordo de Paris. Belém, Brasil © DR

Os sistemas agrícolas e alimentares são hoje responsáveis por 37% das emissões globais de gases de efeito estufa. Mas esse número pode chegar a 65% até 2030, de acordo com o IPCC. Por esse motivo, devido à sua localização geográfica e aos seus numerosos projetos e parceiros em andamento na região, o CIRAD nunca se envolveu tanto em uma COP climática quanto na COP30.

Cerca de quinze pesquisadores e pesquisadores mobilizados, uma presença inédita na zona de negociações, parcerias reforçadas para transmitir em conjunto as nossas mensagens e, acima de tudo, a organização ou participação em cerca de 40 eventos paralelos em pavilhões estratégicos e de diversas instituições, à imagem das nossas parcerias: coletividades territoriais, bancos, universidades, ONG, Estados e organizações internacionais (UNFCCC, FAO).

Este evento emblemático do multilateralismo avança certamente a passos muito pequenos, mas continua a ser indispensável para enfrentarmos todos juntos os desafios globais, constata Vincent Blanfort, responsável pela missão de mudanças climáticas no Cirad. Embora as questões agrícolas não ocupem um lugar central nas negociações climáticas, nunca foram tão evidentes, e o Cirad respondeu bem à altura.”

Prova disso é que a Agrizone, promovida pela Embrapa e pelo governo brasileiro, foi, pela primeira vez na história das COPs climáticas, um espaço dedicado às questões agrícolas. “Vale ressaltar que o Cirad é o parceiro internacional da Embrapa que organizou o maior número de eventos nessa Agrizone”, destaca Pierre Marraccini, diretor regional do Cirad no Brasil.

Os pesquisadores e pesquisadoras transmitiram mensagens sobre diversos temas: sistemas alimentares, desmatamento, pecuária, armazenamento de carbono, agroecologia, cooperação Norte-Sul, abordagens territoriais... Veja imagens dessa participação.

embrapa cirad agrizone

Reunião com a direção da Embrapa na Agrizone. Da direita para a esquerda: Pierre Marraccini (diretor regional do Cirad no Brasil), ao lado de Silvia Maria Fonseca Silveira Massruhá (presidente da Embrapa), Thierry Caquet (vice-presidente responsável pela política internacional do INRAe), Murielle Trouillet (diretora adjunta de relações internacionais do INRAe) e Pierre-Adrien Romon (conselheiro agrícola da Embaixada da França no Brasil).

Compreender a relação entre clima, agricultura e alimentação

A COP30 foi a ocasião para apresentar o trabalho colossal da nova obra coordenada pelo Cirad :A agricultura e os sistemas alimentares mundiais face às mudanças climáticas. Nada menos que 150 pesquisadores e pesquisadores de todo o mundo estão entre seus autores e autoras. Entre diagnósticos e recomendações, este livro pretende ser um guia para compreender e antecipar as mudanças relacionadas ao clima nos setores agrícola e alimentar.

Os resultados mais marcantes desta obra foram compartilhados em vários eventos paralelos durante a COP30. Um documento de posição, traduzido para o inglês e o português, apresenta uma síntese dos mesmos. A tradução do livro para o inglês está prevista para janeiro.

Vincent Blanfort pavillon francophonie COP30

Vincent Blanfort, responsável pela missão “mudanças climáticas” no Cirad, durante a apresentação da obra “A agricultura e os sistemas alimentares mundiais diante das mudanças climáticas” no pavilhão “Francophonie”.

Para uma aliança entre as três bacias florestais tropicais

Antes da COP30, na caravana científica IARAÇU, Géraldine Derroire, ecóloga do Cirad, co-redigiu um policy brief da One Forest Vision. Esta nota defende uma aliança científica, digital e social entre as três grandes bacias florestais tropicais. O objetivo é produzir dados comparáveis sem, no entanto, apagar as realidades locais. Para a ecóloga, “é indispensável mobilizar as ciências sociais para contextualizar as políticas e os apoios técnicos”. A pesquisadora apresentou esse trabalho ao presidente francês Emmanuel Macron na caravana Iaraçu, bem como no pavilhão da França (zona azul).

Géraldine Derroire, écologue au Cirad

Géraldine Derroire, ecóloga do Cirad, apresentando seu trabalho sobre a caravana Iaraçu © DR

Cooperação internacional e colaborações Norte-Sul

Pela primeira vez, o CIRAD também esteve presente na zona de negociações. Emma Jagu Schippers, economista do CIRAD, fez uma apresentação durante as discussões sobre o artigo 6º do Acordo de Paris, relativo à cooperação internacional na luta contra as mudanças climáticas. A pesquisadora participou com o status RINGO (Research and Independent Non-Governmental Organizations, ou Organizações de Pesquisa e Não Governamentais Independentes) para este tema.

No pavilhão da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), Emma Jagu Schippers também organizou um evento sobre as colaborações entre países do Norte e do Sul na conservação florestal.

Emma Jaggu Shippers et Marie Gabrielle Piketty, Cirad COP30

Na zona azul do pavilhão da UNFCCC, Emma Jaggu Shippers discorre sobre as colaborações Norte-Sul ao lado de Marie Gabrielle Piketty (Cirad), Tamsir Mbaye (CNRF/ISRA) à esquerda e Alexandre Strapasson (Universidade de Brasília, à direita). Ela comenta as oportunidades e os limites do Fundo “Tropical Forest Forever” proposto pelo Brasil para reduzir o desmatamento © Cirad, V. Blanfort

TerrAmaz: rumo ao desmatamento zero na Amazônia

O projeto TerrAmaz acaba de ser concluído após cinco anos, com o objetivo de identificar as alavancas operacionais para combater o desmatamento na Amazônia, com base em abordagens territoriais. O projeto, financiado pela AFD, foi realizado no Brasil, na Colômbia, no Equador e no Peru. A COP de Belém foi uma oportunidade para o Cirad e os numerosos parceiros do projeto apresentarem seus resultados no pavilhão da UNFCC na zona azul, nos pavilhões do Estado do Pará e do Banco da Amazônia (BASA) na zona verde, ou ainda na Agrizone.

TerrAmaz COP30

René Poccard, geógrafo do Cirad, apresenta os resultados do projeto Terramaz no pavilhão do estado do Pará. Ao lado dele, Xismena Martinez, do governo de Guaviaré, na Colômbia, parceira do Terramaz (à esquerda), e Dominique Silva Castanheira, secretária de Desenvolvimento Sustentável da prefeitura de Paragominas (à direita).

Carbono do solo: os avanços da iniciativa “4 por 1000”

Lançada durante a COP21 de Paris, em 2015, a iniciativa “4 por 1000” reúne estudos sobre o armazenamento de carbono nos solos. O Cirad coordena os trabalhos nos territórios ultramarinos franceses.

Durante a COP30 em Belém, o coletivo apresentou um policy brief que destaca o papel fundamental das comunidades locais nas estratégias de conservação do carbono do solo. Diferentes eventos paralelos fizeram um balanço dos recentes avanços científicos sobre as capacidades de armazenamento de carbono dos solos mundiais e, de forma mais ampla, sobre o tema da saúde do solo. Raphaël Marichal, ecólogo do solo do Cirad, organizou dois eventos sobre esse tema, graças ao financiamento do projeto FEFACCION (Fundo Equipe França para Ação na Amazônia em torno das Mudanças Climáticas e seus Impactos).

Raphaël Marichal, écologue au Cirad, COP30

Raphaël Marichal, ecólogo do Cirad, destaca a importância dos solos em nossos ecossistemas durante um evento aberto ao público na Universidade Federal do Pará (UFPA).

Ações comunitárias fundiárias para uma sinergia entre clima, biodiversidade e alimentação

Outro evento coorganizado pelo CIRAD no Pavilhão da UNFCCC intitulava-se “Desenvolver sinergias entre o clima, a biodiversidade e a alimentação por meio de ações fundiárias conduzidas pelas comunidades”. Reunindo um grupo multidisciplinar de especialistas, o evento teve como objetivo analisar os compromissos e as sinergias associados ao desenvolvimento de soluções baseadas na gestão sustentável da terra, respondendo às interações entre clima, biodiversidade e segurança alimentar. A ambição é também colocar as mulheres, as comunidades locais e os povos indígenas no centro dos processos como atores-chave e eficazes.

Vincent Blanfort pavillon UNFCCC COP30

Este evento foi co-apresentado por Vincent Blanfort (à esquerda, pesquisador do CIRAD e responsável pela área de mudanças climáticas) © M. G. Piketty

Um manifesto pela agrofloresta

No coração das zonas rurais brasileiras devastadas por anos de degradação florestal, os agricultores desenvolvem soluções agroflorestais para recuperar os territórios. Mais de 400 iniciativas agroflorestais foram identificadas nos arredores de Belém. No âmbito do projeto Sustenta e Inova, um grupo de estudantes-agricultores participou de um curso universitário na Universidade Federal do Pará (UFPA), em parceria com o Cirad: o grupo Refloramaz. Durante o seminário de encerramento da formação, em abril de 2025, um manifesto pela agrofloresta foi redigido por esses líderes agroflorestais brasileiros, a fim de levar suas reivindicações comuns aos atores políticos. Durante a COP30, esse “Manifesto para recuperação da floresta e valorização da vida na Amazônia” foi entregue a vários ministros brasileiros: Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e do Clima, Paulo Teixeira, ministro do Desenvolvimento Agrário, e Sonia Guajajará, ministra dos Povos Indígenas. O texto também recebeu a assinatura do renomado climatologista brasileiro Carlos Nobre.

Mais de 400 representantes já assinaram o manifesto, provenientes de diversas instituições, principalmente do Brasil, mas também de outros países (Colômbia, Peru, Suriname, Guiana Francesa, França, Bélgica, Congo). Tudo isso contribui para dar visibilidade às soluções para a justiça climática, promovidas pela agricultura familiar e agroecológica, que envolve milhões de pessoas no Brasil e no mundo.

Emilie Coudel Cirad - manifeste agroforesterie avec Paulo Petersen

Apresentação do Manifesto a um parceiro de longa data do Cirad: Paulo Petersen, coordenador da “Articulação Nacional para a Agroecologia”, uma rede de mais de 500 instituições que trabalham em prol da agroecologia no Brasil. Ele foi “enviado especial” da UNFCCC para representar a agricultura familiar nas negociações oficiais da COP30. É a primeira vez que a agricultura familiar está na agenda de uma COP sobre o clima.

Carbono na Amazônia: quais são as alavancas para atenuar as mudanças climáticas?

Um evento intitulado “Carbono da vegetação e carbono do solo na Amazônia” foi realizado no Pavilhão da Comunidade Territorial da Guiana Francesa (CTG). O objetivo era criar um espaço de diálogo para fortalecer as parcerias regionais, especialmente entre a Guiana Francesa e o Brasil, sobre as alavancas de mitigação das mudanças climáticas nos territórios florestais amazônicos.

René Poccard-Chapuis Cirad COP30

© Cirad, G. Derroire

Laboratórios florestais vivos: o papel decisivo dos povos indígenas e das comunidades locais

No pavilhão da França, Emilie Coudel, socioeconomista do Cirad, organizou um evento sobre a governança das florestas tropicais sul-americanas. Foram apresentados três exemplos de “laboratórios florestais vivos”, dois no Brasil e um na Guatemala. Essas iniciativas se baseiam em uma visão da ciência enraizada nos territórios e, acima de tudo, colaborativa: os povos indígenas e as comunidades locais são integrados desde o início a esses projetos de pesquisa.

No caso do Brasil, as discussões se concentraram em dois laboratórios vivos que acabaram de ser lançados no âmbito do projeto Capoeira (Centro Avançado de Pesquisa em Restauração Socioecológica na Amazônia, coordenado pela Embrapa e com a participação do Cirad). Esses laboratórios vivos permitem perpetuar as colaborações existentes há cerca de dez anos em dois territórios amazônicos. Lívia Navegantes Alves e Rosileia Carvalho (UFPA) abordaram as contribuições do projeto Sustenta & Inova na região ao redor de Belém, especialmente com a formação de líderes agroflorestais. Beatriz Abreu dos Santos (Universidade de Brasília) apresentou os recentes avanços do coletivo Guardiões do Bem-Viver, um movimento social de jovens da Amazônia que defendem outro modo de vida para o território do Lago Grande, na região de Santarém.

Emilie Coudel et Marie-Ange Ngo Bieng, Cirad COP30

Mesa redonda sobre três laboratórios florestais vivos envolvendo povos indígenas, com, da esquerda para a direita: Emilie Coudel (Cirad), Lívia Navegantes (UFPA), Rosileia Carvalho (UFPA e representante da comunidade tradicional), Beatriz Abreu dos Santos (UNB), Teresita Chinchilla (Acofop) e Marie-Ange Ngo Bieng

Para a Guatemala, foi apresentado o projeto ConForMa, que se concentra no extraordinário nível de conservação das florestas comunitárias da Reserva da Biosfera Maia, no norte do país. Financiado pelo Fundo Francês para o Meio Ambiente Mundial (FFEM), esse projeto é coordenado por Marie-Ange Ngo Bieng, ecóloga do Cirad. Juntamente com Teresita Chinchilla, diretora técnica da Associação das Comunidades Florestais de Petén, elas apresentaram esse modelo inspirador para mostrar como a pesquisa francesa pode se associar às comunidades e povos indígenas para inovar na preservação das florestas da América tropical.

Teresita Chinchilla (Acofop) et Marie-Ange Ngo Bieng (Cirad) COP30

No pavilhão da França, Teresita Chinchilla (Acofop) e Marie-Ange Ngo Bieng (Cirad) destacaram o estudo de caso das florestas da reserva da biosfera Maya, na Guatemala, e seu modelo de gestão florestal comunitária no âmbito do projeto ConForMa.

Esses trabalhos, tanto no Brasil quanto na Guatemala, ecoam diretamente a forte presença de representantes de comunidades indígenas e povos autônomos na COP30. Eles reivindicaram o direito de receber pagamentos por serviços ambientais, a fim de apoiar suas ações de proteção da floresta, considerada um bem comum.