Na Amazônia brasileira, o município de Paragominas se destaca como referência em desenvolvimento territorial de baixo carbono
Na Amazônia brasileira, o município de Paragominas se destaca como referência em desenvolvimento territorial de baixo carbono
10/04/2026
De antiga frente pioneiras do desmatamento na Amazônia brasileira a primeiro “município verde” em 2010 em referência a uma política ambiental inovadora, Paragominas vem reorganizando, desde 2023, seu modelo de desenvolvimento territorial em torno das restrições e oportunidades relacionadas à emergência climática. Esta nova etapa na trajetória de Paragominas baseia-se em um acompanhamento de longo prazo por meio da pesquisa e na mobilização conjunta de atores privados, públicos e da sociedade civil. Presente no território há mais de quinze anos, o Cirad desempenha um papel central na concepção e implementação de práticas agrícolas, organizações institucionais e instrumentos de gestão territorial.
Hoje, Paragominas se impõe como uma referência amazônica em matéria de desenvolvimento territorial de baixo carbono, capaz de conciliar avanços em termos de produção agrícola, inclusão social e restauração
Paragominas, um município inspirador da Amazônia brasileira
O município de Paragominas, cuja área corresponde à da Eslovênia (19.342 km²), figurou, desde a década de 1960 até 2007, entre os maiores responsáveis pelo desmatamento na Amazônia. A razão está em uma sucessão de ciclos de desenvolvimento agrícola e florestal, impulsionados por pioneiros e, por vezes, também por políticas governamentais. Por motivos relacionados à propriedade da terra, à poupança ou à fertilidade dos solos, cada ciclo levou, à sua maneira, a novos e massivos desmatamentos.
Essa trajetória sofreu uma primeira reviravolta em 2008, quando a prefeitura assumiu um duplo compromisso, tanto com os agricultores quanto com o governo federal. Ao organizar a adesão dos agricultores de Paragominas às novas diretrizes ambientais, ela provocou a queda do desmatamento e gerou um nova atratividade para os investidores. Essa reviravolta total na reputação produziu um benefício de imagem inestimável para o mundo rural e as instituições locais. O novo Código Florestal brasileiro, aprovado em 2012, inspirou-se amplamente na experiência ousada de Paragominas, agora o primeiro “município verde” da Amazônia.
Mas os anos seguintes mostraram que o fim do desmatamento não resolve os problemas cruciais da degradação das florestas e dos solos, da inclusão social e da luta contra a pobreza, da produtividade agrícola e do êxodo rural. Além disso, é profundamente insuficiente diante das emergências climáticas.
Paragominas, assim como todos esses territórios amazônicos que venceram o desmatamento ilegal, possui, no entanto, grandes trunfos a serem valorizados nessa questão climática, territorial e global ao mesmo tempo. Essa é a razão de ser do programa Paragoclima, que vem implementando, desde 2023, uma nova estratégia de desenvolvimento de baixo carbono.
Da pesquisa à ação: quinze anos de cooperação entre o Cirad e Paragominas
Aujourd’hui le programme s’attache, toujours avec l’appui du Cirad, à organiser les synergies entre les composantes de la mairie (agriculture, environnement, planification, infrastructures …), ainsi qu’avec les projets et initiatives institutionnelles en cours sur le territoire (ONGs, groupes privés, fondations, R&D), autour d’un programme commun et centré sur les solutions bas-carbone.
Há mais de 15 anos, o Cirad está presente em Paragominas, preparando e acompanhando essa mudança de trajetória. Essa cooperação, construída em torno de uma parceria com a Embrapa, teve início a partir de projetos de pesquisa científica, como o projeto ECOeficiências e Desenvolvimento Territorial na Amazônia Brasileira (ECOTERA), que permitiram desenvolver conceitos e adaptar métodos para refletir melhor sobre um desenvolvimento sustentável adequado ao território. Esses resultados de pesquisa alimentaram, em seguida, iniciativas participativas e a implementação desses conceitos no território, graças a projetos de desenvolvimento como Territórios Amazônicos (TerrAmaz, financiado pela AFD) ou Sustenta & Inova (financiado pela UE), até constituir uma grande parte da estrutura operacional de Paragoclima.
Hoje, o programa se dedica, sempre com o apoio do Cirad, a organizar as sinergias entre os setores da prefeitura (agricultura, meio ambiente, planejamento, infraestruturas...), bem como com os projetos e iniciativas institucionais em andamento no território (ONGs, grupos privados, fundações, P&D), em torno de um programa comum e centrado em soluções de baixo carbono.
A Amazônia se estende por nove países, incluindo a França (Guiana Francesa). Ela abriga a maior floresta tropical do planeta, uma reserva inestimável de água doce, carbono e biodiversidade. Mas como a preservação desse ambiente excepcional pode ser conciliada com as necessidades de seus 47 milhões de habitantes? Faltando apenas alguns dias para a Cúpula que reunirá os estados amazônicos no Brasil, aqui está uma visão geral do trabalho do CIRAD sobre essas questões amazônicas.
Essas soluções são :
O cultivo de mandioca sem fogo, mecanizado e associado a plantas de serviço, que preservam o solo, facilitam o trabalho dos agricultores e geram coprodutos utilizáveis na pecuária ou comercializáveis. As parcelas acabam por formar sistemas agroflorestais, nos quais as diversas plantas e arvores produz novos serviços ecossistêmicos para o território.
A pecuária bovina sustentável em pastagens rotativas, cuja biomassa permite restaurar solos degradados, aumentando também a produtividade da terra e do trabalho, bem como a quantidade e a qualidade dos bovinos comercializados. A introdução de espécies arbóreas regula a temperatura e a umidade, para melhores desempenhos econômicos e serviços também à escala do território (biodiversidade, carbono, ciclo da água).
A construção de paisagens eficientes, ou seja, a reorganização dos usos do solo de acordo com suas aptidões. Essa adequação entre usos e aptidões, que não era efetiva na época da abertura das fazendas por meio do desmatamento sistemático, permite hoje recompor uma malha florestal composta por corredores conectados e estrategicamente localizados para regular o ciclo da água, promover a biodiversidade, evitar a erosão do solo e sequestrar carbono.
Um conjunto de planos de ação e de capacitação, para facilitar o aprendizado, organizar incentivos e combater os megaincêndios. Cada uma dessas soluções é concebida no âmbito conceitual da intensificação moderada, para garantir o envolvimento de todas as populações, inclusive as mais desfavorecidas, a recuperação de todos os solos e florestas, inclusive os mais degradados, e a inclusão de todas as paisagens, inclusive as mais isoladas
Além de seus benefícios sociais e econômicos, cada uma dessas soluções se traduz, em todo o território, em um aumento da biomassa produzida e posteriormente reciclada, bem como na aceleração dos metabolismos vegetais e animais. Assim, mais carbono é retirado da atmosfera, mobilizado pelos organismos vivos e, em seguida, armazenado nos solos ou nas florestas. O carbono atmosférico torna-se a principal matéria-prima desses novos sistemas.
Paragoclima: neutralizar as emissões de carbono do território até 2030
Desde 2024 e a aprovação da “Lei Paragoclima”, o município formaliza e concretiza sua estratégia de desenvolvimento de baixo carbono por meio do programa Paragoclima. Sua ambição é orientar e acelerar a transição do modelo de desenvolvimento para alcançar a neutralidade de carbono do município até 2030. Embora a maior parte dos mecanismos de armazenamento e redução de emissões se baseie em uma melhor gestão da biomassa, graças a práticas agrícolas e florestais mais eficientes, as alavancas de ação para alcançar esse objetivo envolvem praticamente todo o tecido econômico e social do território.
O Paragoclima constitui, portanto, em primeiro lugar, uma ferramenta de governança territorial, para identificar as iniciativas existentes, organizar estratégias para que contribuam para essa transição, por vezes reunir recursos, instituir incentivos e, em todos os casos, criar sinergias para ampliar e orientar os impactos. Paralelamente, o Paragoclima elabora planos de ação focados nos potenciais climáticos do território: a produção agrícola e a comercialização dos produtos, a prevenção de incêndios, a organização das paisagens, a gestão florestal, com, para cada um deles, ferramentas de gestão — e, por vezes, incentivos — específicas e sinérgicas às iniciativas em curso.
Por meio dessa governança, o território renova sua imagem e ganha um novo apelo, essencial para apoiar os planos de ação do Paragoclima. Além dos investimentos privados, o marco jurídico do programa foi concebido para receber fundos climáticos e colocá-los a serviço da transição do território para um desenvolvimento de baixo carbono.
No dia 3 de abril de 2023, o município de Paragominas, no Estado do Pará no Brasil, lançou oficialmente o projeto ParagoClima, cujo objetivo é alcançar a neutralidade de carbono até 2030. O CIRAD é um dos membros do grupo de trabalho GT CLIMA/PARAGOMINAS responsável pela implementação desse projeto.
O compromisso do setor privado para dar continuidade e ampliar os sucessos
A perspectiva do desenvolvimento de baixo carbono é atraente para os atores privados. O compromisso deles é um indicador da credibilidade do projeto territorial. É essencial para que as iniciativas financiadas com recursos públicos se tornem plenamente operacionais. Três tipos de compromissos privados já estão em vigor no âmbito do Paragoclima:
o das fazendas que adotam soluções de baixo carbono, que são de todos os tipos: familiares, empresariais, de pecuária, de agricultura ou de exploração florestal;
o das empresas que são motores do modelo de desenvolvimento de baixo carbono, como os projetos REDD (Carbonext, Campo Verde).
O promissor setor de responsabilidade social das grandes empresas (a multinacional Suzano), que nisso encontram a oportunidade de atingir seus objetivos sociais e ambientais.
Um quarto tipo de entidade poderia se envolver: as fundações privadas que também desejam aplicar seus recursos em iniciativas com impactos claramente comprovados, supervisionadas pelas instituições locais. A essa lista soma-se também o Banco da Amazônia S.A., que está lançando em Paragominas uma operação piloto de finanças verdes, no âmbito do projeto AMABIO coordenado pela Expertise France, também em parceria com o Cirad (financiamento da Agência Francesa de Desenvolvimento).
Após a assinatura de seu primeiro memorando de entendimento no dia 29 de abril de 2024, o CIRAD e a Suzano, produtora brasileira de celulose, acabam de assinar seu primeiro acordo de cooperação para implementar o projeto “Semeando Prosperidade” no município de Paragominas-Pa, na Amazônia brasileira. O objetivo é combater a pobreza apoiando as comunidades rurais e indígenas, e por meio da implementação de práticas agrícolas sustentáveis ligadas à biodiversidade prioritária. O projeto, com duração de um ano, foi financiado em R$ 410.000,00 pela Suzano e será gerenciado pelo CIRAD.
No final de janeiro de 2026, a prefeitura de Paragominas, em parceria com o Cirad e a empresa Suzano, organizou um workshop de dois dias que reuniu todas as instituições que atuam no município em apoio à produção agrícola familiar. Ao redor da mesa, a Embrapa, o Sebrae, a Suzano, a Carbonext, a Suzymel, a Expertise France, o Sindicato dos Produtores Rurais, o Fórum das Comunidades Rurais e as ONGs Earth Innovation Institute e Imazon apresentaram suas atividades, com o objetivo de destacar as possíveis sinergias. A segunda fase do projeto “Semer la prospérité”, financiada pela Suzano, será implementada pelo Cirad (2026-2028) para aproveitar esses intercâmbios e complementaridades interinstitucionais. Isso permitirá ampliar as atividades para novas comunidades, contribuindo assim para consolidar a transição de baixo carbono no território de Paragominas. Como prelúdio a essa reunião, o Sr. Emmanuel Lenain, embaixador da França no Brasil, reuniu-se com as autoridades locais e visitou as comunidades e vários agricultores participantes desses projetos.
Articulação com as políticas do Estado do Pará para envolver os territórios vizinhos
Uma escala territorial mais ampla, abrangendo uma comunidade de municípios, permitiria valorizar melhor os pontos fortes do desenvolvimento de baixo carbono, tanto nos mercados quanto perante os investidores. Desde 2023, o Cirad mantém um acordo com o Estado do Pará para ajudá-lo a implementar um “Território Sustentável” na região de Paragominas, com base em suas conquistas em termos de desenvolvimento de baixo carbono. Esse acordo permite mobilizar e influenciar diversas políticas do Pará:
O “Cheque para a Pecuária”, que subsidia, no valor de 3.500 euros por propriedade, a implantação de pastagens rotativas.
O pagamento por serviços ambientais, que subsidia, com valores variáveis entre 2.000 e 3.000 euros, a restauração e proteção das florestas nas propriedades familiares.
A regularização ambiental, que se encarrega da adequação das fazendas às normas ambientais nacionais (cadastro ambiental rural), a criação do território sustentável propriamente dito, com as vantagens que isso traz em termos de priorização das políticas citadas.
O estado do Pará é também um dos estados amazônicos onde o projeto AMABIO será implementado em breve por meio de empréstimos com juros bonificados, financiados pelo Banco da Amazônia (BASA). Graças a essa trajetória voltada para o desenvolvimento de baixo carbono, Paragominas é hoje reconhecida como referência em políticas de desenvolvimento territorial sustentável. Essa dinâmica virtuosa contribui para reforçar a atratividade do território, favorecendo a instalação de novas parcerias e o interesse de investidores comprometidos com modelos de desenvolvimento de baixo carbono e inclusivos.