Melhorar a gestão da água em regiões semiáridas: a experiência do Ceará, no Brasil

09/10/2026
O estado do Ceará, no Nordeste brasileiro, é uma das regiões do país mais afetadas pela seca. As transformações agrícolas dos últimos anos aumentaram as pressões sobre os recursos hídricos, os solos e os ecossistemas. Foi nesse contexto que surgiu o projeto Sertões. Objetivo: contribuir para a construção de uma governança da água mais articulada com as dinâmicas dos territórios, permitindo uma melhor coordenação entre setores e uma melhor articulação entre os níveis de decisão.
Paisagem rural da Caatinga no período da chuva, no interior semiárido do Ceará
Paisagem rural da Caatinga no período da chuva, no interior semiárido do Ceará

Paisagem rural da Caatinga no período da chuva, no interior semiárido do Ceará © Funceme

O essencial

  • O projeto Sertões destacou os limites de uma governança hídrica ainda fortemente setorializada e insuficientemente articulada entre o nível estadual e as dinâmicas locais.
  • O projeto demonstrou que o desenvolvimento da produção leiteira, uma verdadeira oportunidade econômica para os agricultores familiares, aumenta a pressão sobre os recursos hídricos, os solos, as florestas e os agroecossistemas.
  • O projeto Sertões experimentou novas modalidades de governança local da água, promovendo a coordenação entre setores e a articulação entre os níveis de decisão. Em particular, acompanhou a construção conjunta de dois Conselhos Municipais da Água (CMA), concebidos como espaços de concertação e coordenação intersetorial.

Nove milhões de pessoas vivem no Estado do Ceará. Entre 2012 e 2018, um grave período de seca revelou os limites do sistema estadual de abastecimento de água. Com o objetivo de fortalecer a resiliência desse sistema, o governo do Estado do Ceará implementou um importante programa de tratamento e distribuição de água potável para seus centros urbanos. Esse projeto é chamado de “Malha d’Água”.

Malha d’Água conta com estações de tratamento e uma vasta rede de adutores destinados a transportar a água tratada de grandes reservatórios estratégicos para os centros urbanos dos municípios e distritos do interior do Ceará. Ao conectar diferentes regiões a fontes de água mais confiáveis, o projeto deve permitir reduzir os efeitos das secas e garantir um acesso mais seguro e regular à água para a população. No entanto, ao modificar a distribuição dos recursos hídricos nos territórios, essa iniciativa transforma os equilíbrios locais e levanta questões de governança para acompanhar essas mudanças.

“Para que a Malha d’Água funcionasse, precisávamos discutir as escalas no âmbito territorial e local, bem como a maneira como essas comunidades se beneficiariam e poderiam aproveitar essa estrutura, explica Eduardo Martins, presidente da Funceme. Foi assim que surgiu essa proposta de realizar um projeto de pesquisa-ação sobre a governança da água, que abrangesse não apenas o setor de recursos hídricos, mas também a articulação entre os diferentes setores e entre as diferentes escalas. Trata-se do projeto Sertões”.

Iniciado em 2020, o projeto Sertões foi realizado em duas fases sucessivas: Sertões 1 e Sertões 2. A primeira fase permitiu realizar um diagnóstico da governança atual, dos usos da água e das dinâmicas territoriais no Estado do Ceará. A segunda fase concentrou-se na coconstrução e na experimentação de iniciativas-piloto de governança local da água e de inteligência territorial. O projeto Sertões foi implementado pelo CIRAD e pela Fundação de Meteorologia e Recursos Hídricos do Ceará (FUNCEME), e financiado pela Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD).

A produção leiteira exerce pressão sobre os recursos hídricos

Durante a fase de diagnóstico, o projeto Sertões se concentrou em analisar a evolução dos usos da água à luz das transformações nos sistemas de produção agrícola. De fato, as práticas agrícolas influenciam diretamente os volumes de água captados e, consequentemente, a quantidade de recurso disponível nos territórios.

No entanto, após a seca de 2012 a 2018, ocorreu uma transformação nos sistemas de produção agrícola em muitos territórios do interior do Ceará. As culturas tradicionais de sequeiro (milho, feijão) deram lugar, em parte, à produção leiteira, economicamente mais vantajosa para os agricultores familiares.

Estudos avaliaram o impacto dessas mudanças nos recursos hídricos. Entre 2010 e 2020, o número de reservatórios de água aumentou na maioria das regiões, chegando, em alguns casos, a 120%.

Para cultivar as forragens necessárias à alimentação dos animais, os agricultores são levados a criar novas parcelas agrícolas, o que acarreta um aumento do desmatamento da caatinga e a perpetuação das áreas abertas. A abertura dessas novas parcelas também favorece a erosão do solo, que não é mais protegido pela vegetação natural nem regenerado, como tradicionalmente ocorria, pelo uso de pousios florestais prolongados. A produção de forragem na estação seca também depende da irrigação, aumentando assim a demanda por água.

A produção leiteira constitui uma importante fonte de renda para os agricultores familiares do Ceará

A produção leiteira constitui uma importante fonte de renda para os agricultores familiares do Ceará, mas também aumenta a pressão sobre os recursos do território © I. Tritsch, CIRAD

Rumo a sistemas de produção mais resilientes: as recomendações do projeto Sertões

As entrevistas individuais realizadas com agricultores dos municípios de Piquet Carneiro e Quixeramobim mostram que a produção leiteira representa uma verdadeira oportunidade econômica para os agricultores familiares do Ceará. No entanto, o modelo de produção atual é intensivo, especializado e mobiliza muitos recursos do território, além de insumos químicos externos. Esse sistema de produção parece, portanto, pouco sustentável e vulnerável às mudanças climáticas.

Para reforçar a sustentabilidade e a resiliência dos sistemas agrícolas, o projeto Sertões recomenda, entre outras medidas, diversificar as produções e acompanhar a evolução da produção leiteira em direção a práticas mais sustentáveis e eficientes. “Ainda há muitas áreas que podem ser estudadas para melhorar a sustentabilidade e a eficiência da produção de leite: o uso da água, a escolha das forragens, o manejo do solo e a valorização dos fertilizantes orgânicos”, afirma Eric Scopel, pesquisador do CIRAD.

Paralelamente, o projeto testou novas formas de governança local da água e de coordenação territorial intersetorial. Foi nesse contexto que foram criados e testados dois Conselhos Municipais da Água (CMA).

Um sistema inovador de governança da água, mas que ainda apresenta pouca articulação entre escalas e setores

O Estado do Ceará possui um sistema participativo de governança dos recursos hídricos, estruturado em torno das grandes bacias hidrográficas e dos grandes reservatórios estratégicos e baseado, principalmente, em comitês de bacia. Particularmente inovador no Brasil, esse sistema serviu de inspiração para outros estados do país. No entanto, ele ainda leva pouco em conta a escala local e, em especial, a evolução dos inúmeros pequenos reservatórios.

No entanto, sua proliferação pode afetar os volumes de água dos grandes reservatórios estratégicos. Essas interdependências ressaltam a necessidade de articular melhor os diferentes níveis de governança hídrica.

A essa desconexão entre escalas soma-se uma forte setorialização da governança da água. As políticas públicas, os mecanismos de monitoramento e a tomada de decisões continuam amplamente organizados por setor de atividade (agricultura, gestão de recursos hídricos e saneamento, principalmente), com interações limitadas entre os atores. Essa setorialização limita a coordenação entre as instituições e pode levar a sobreposições de intervenções ou financiamentos, bem como a disparidades no apoio aos territórios.

“Sem integração, não teremos compreensão. Não conseguiremos entender o território se não conversarmos e se não integrarmos esses dados. É justamente isso que o projeto Sertões busca trazer: uma metodologia que permita fazer essa integração.” João Dehon, Funceme

O Conselho Municipal da Água (CMA): um novo mecanismo para a governança da água no âmbito municipal

Para responder aos desafios da governança local da água, foram organizados mais de 60 workshops nas comunidades, nos municípios e no âmbito estadual, envolvendo mais de 400 participantes e 36 instituições municipais. Diferentes métodos e abordagens participativas foram utilizados para promover o diálogo e a produção coletiva de conhecimento: diagnósticos rurais participativos, entrevistas individuais, abordagens ComMod baseadas, notadamente, em jogos sérios, bem como oficinas de cocriação de conhecimento e recomendações.

Oficina participativa organizada no âmbito da construção conjunta dos Conselhos Municipais da Água, espaços locais de diálogo entre múltiplos atores

Oficina participativa organizada no âmbito da construção conjunta dos Conselhos Municipais da Água, espaços locais de diálogo entre múltiplos atores © Renan Lutiane, Funceme

Essas trocas deram origem a uma inovação na governança da água, construída em conjunto entre os usuários e os atores institucionais envolvidos em diferentes níveis: o Conselho Municipal da Água (CMA). O CMA não pretende substituir os órgãos de governança da água já existentes, mas atua, antes, como um espaço complementar de concertação, colaboração e articulação no âmbito local.

As funções do CMA são as seguintes:

  • mediação: resolver conflitos relacionados ao uso da água em nível local, sempre que possível, a fim de evitar que os casos sejam sistematicamente encaminhados às instâncias estaduais;
  • diagnóstico participativo: identificação das necessidades e demandas locais;
  • priorização de investimentos: principalmente por meio da utilização da plataforma participativa de informações geoespaciais (SIT, ou Sistema de Informação Territorial);
  • apoio consultivo para a elaboração dos planos de ação do município.

Após a definição desse novo mecanismo de governança e sua implantação em dois territórios-piloto, Piquet Carneiro e Quixeramobim, o desafio é conseguir difundir esse modelo por todo o Estado do Ceará.

A criação das CMAs depende, em primeiro lugar, da decisão dos municípios, que serão responsáveis por dar início aos trâmites para sua estruturação e formalização por meio de decreto. Para apoiar as prefeituras nessas iniciativas, o Estado do Ceará deve disponibilizar capacitações técnicas para os futuros membros das CMA, definir um marco legal nos textos que regem a governança da água no Estado e articular recursos financeiros para garantir seu funcionamento.

Para os financiadores que se propõem financiar projetos na área da água, recomenda-se que incluam nesses projetos um componente e um financiamento específico para a governança, além de incentivarem a implantação de um sistema de informação territorial que facilite o acompanhamento, a tomada de decisões e a transparência.